De como o Homem contemporâneo pode beneficiar do Yoga

A massificação da expressão “Yoga” sobreposta a qualquer produto que projeta uma imagem persuasiva segundo uma necessidade individual ou colectiva, tem por um lado aguçadar a curiosidade de conhecer este sistema milenar, e por outro tem destorcido a mensagem que o Yoga transporta para a Humanidade.
Em plena “Modernidade Líquida” (Bauman, 2000) da sociedade contemporânea, encontramo-nos em constante mobilidade e mudança nos relacionamentos, identidades e economia global. Dentro deste ambiente “líquido” e consequente percaridade emocional, somos expostos a estímulos contínuos massivos e ambicionamos receitas milagrosas instantâneas para aliviar o mal-estar existencial.
O resultado é um crescente vórtice de enturpecimento, segregação e estremismos que já nem o consumismo consegue acalmar. E enquanto despertamos para a necessidade de criar um novo modelo de existir individual e colectivo, procuramos novos “guidelines” para mantermos o equilíbrio e foco que a era da incerteza moderna exige para chegarmos a “bom porto”.
Muito poderiamos beneficiar do sistema de conhecimento que o Yoga nos disponibiliza, desde que aplicassemos uma pequena parte da sua atenção aos seus conselhos e preceitos. É que poderiamos descobrir como fundamentar a nossa integridade e encontrar alternativas de satisfação sustentável, sem venerar produtos, personalidades nem cooperações! A Liberdade, por tanto.

De onde nos chega o Yoga

Yoga é uma ciência milenar desenvolvida pelos estudiosos do Yoga (Yogis) da Índia. É antes demais um método de cura, equilíbrio e energização do corpo e mente que podem conduzir a um melhor desempenho em todos os aspectos da vida humana. No entanto, pode também fazer parte de um caminho espiritual, não-religioso, baseado na experiência e prática, que pode conduzir o praticante comprometido a um estado de equanimidade perante a volatilidade da vida.

A origem da ciência do Yoga perde-se nas brumas do tempo. Segundo a lenda, o Yoga foi criado pelo deus hindu Shiva numa ilha remota. No momento em que ele transmitia o Yoga à sua esposa, a deusa Parvati, um peixe o teria observado. Shiva ao se dar conta que o peixe teria assimilado o conhecimento do Yoga, tansmitiu-lhe poderes divinos. Este adquiriu forma humana tornando-se em Matsyendra (Rei dos Peixes) e transmitiu os conhecimentos aos seres humanos.

Em termos pragmáticos, existem evidências de que os primeiros rudimentos das posturas de Yoga surgiram na civilização do Vale do Indo por volta de 2000 a.C, no atual território paquistanês. Desde que tomou forma, a proposta do Yoga é de servir a humanidade como guião para conduzir o ser humano à auto-realização.

A palavra ”Yoga” deriva da raiz do sânscrito “Yuj” que significa ligar, juntar, dirigir a atenção e  a concentração em direção a algo. A definição de que “Yoga é êxtase”, ou seja, um estado de consciência, encontra-se no Vedânta, o ramo dominante da filosofia hindu. Em sânscrito “êxtase” corresponde a samâdhi, sinónimo de “colocar junto” como também “reunir”, “união” e “comunhão”.

O Yoga não é um dogma, mas sim um dos seis sistemas ortodoxos da filosofia indiana. A primeira definição filosófica do Yoga apresenta-se no sexto capítulo da obra “Bhagavad Ghita”, através do diálogo entre a divindade Sri Krishna e o guerreiro Arjuna. Yoga aqui está para a disciplina e controlo da mente, como meio para garantir a felicidade. Através do autocontrolo, do ascetismo e da meditação, o “corpo-mente” é disciplinado para que se liberte do “sofrimento” da vida material, viabilizando a chegada à realização da “essência divina”, do “Si Mesmo” – Brahman ou “Absoluto”. Eliminado o véu do Ego percebemos que na nossa essência, somos afinal “Um” todo

No pensamento Indiano, tudo é permeado por essência divina (paramatma), da qual o espírito humano (jivatma) faz parte. O sistema do Yoga ensina a forma de como jivatma pode encontrar a união com paramatma, e assim atender à liberdade (moksa). Desta forma o ser humano reconhece a realização de que contém em si a essência divina universal e como tal está liberto de qualquer dor e sofrimento. Essa realidade singular é considerada o destino último da evolução humana. Porém, para lá chegar, o praticante deve percorrer um caminho rigoroso de auto-conhecimento.

Do que Patanjali contribuiu para o Yoga

Ao sábio Patanjali é atribuido a sistematização do Yoga, Grámatica e a medicina Ayurvédica. Patanjali codificou a filosofia Yoga formal, que desde cerca 400 DC chegou aos nossos dias. A sua obra “Yoga Sutra” é constituído por 196 aforismos, dividido em quarto capítulos Samadhi Pada (descrição do que é Yoga e a forma como alcançar o estado de Samadhi), Sadhana Pada (prática e disciplina do Yoga), Vibhuti Pada (resultados da prática do Yoga) e Kaivalya Pada (descrição do processo de libertação e a realidade do ego transcendental).
O sistema de Patanjali é que propõe a domesticação da mente através da meditação (dhyana) para ampliar o conhecimento da realidade suprema e, finalmente, alcançar a libertação (moksa). Patanjali cunhou a definição de “yoga” no seu segundo sutra, sintetizando:
yogas chitta vrtti nirodhah – Yoga Sutras 1.2
“Yoga é a inibição (nirodhah) das modificações/oscilações (vrtti) (vrtti) da mente (chitta)”.
Para este fim, Patanjali prescreve oito aspectos a respeitar, conhecidos como os oito membros do Yoga (Ashtanga):
  • Yama (disciplina)
  • Niyama (autocontrole)
  • Ásana (postura)
  • Prânâyama (controle de respiração)
  • Pratyâhâra (recolhimento dos sentidos )
  • Dhâranâ (concentração)
  • Dhyâna (meditação)
  • Samadhi (êxtase)
Patanjali é tradicionalmente representado como um híbrido de homem e serpente.

A forma humano indica a individualidade do homem, uma vez que ele foi dotado de inteligência para usar os seus próprios esforços de forma a cumprir o objetivo supremo. A forma humano indica a individualidade do homem, uma vez que ele foi dotado de inteligência para usar os seus próprios esforços para cumprir o objetivo supremo. A forma da serpente está conotada com o deus Adishésha, símbolo da Consciência. Este sugere o movimento contínuo na busca do Sadhana (ego-transcendência), que não pode terminar até que a meta seja alcançada.

Com quatro braços, Patanjali apresenta duas mãos unidas em mudra, e duas mãos a segurar diferentes símbolos de poder: espada, maça, concha e disco.

“Patañjali is saying that yoga
is a preventive healing art, science and philosophy, by which we build up
robust health in body and mind and construct a defensive strength
with which to deflect or counteract afflictions that are as yet unperceived afflictions.”

B.K.S. Iyengar, Light on the Yoga Sutras of Patanjali